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30.07.07
Foi criado um Projeto de Lei, publicado no Diário Oficial do Legislativo em 29/05/2007, que determina que todo 12 de junho seja o Dia do Sucateiro, um dia de homenagem a essa categoria que pela sua atividade, tanto contribuiu para o desenvolvimento do pais, seja no âmbito industrial ou na preservação do meio ambiente. A História de toda atividade humana, por mais humilde que seja, quando desenvolvida por gente honesta e com reflexos nos bens comuns, pode muito bem ganhar contornos épicos. No caso específico de São Paulo é quase impossível contar a história da industrialização de nosso Estado, sem comover-se com o misto de coragem, audácia, tenacidade e espírito empreendedor demonstrada pelos pioneiros de cada ramo de atividade. Se é grande lembrar dos grandes capitães da indústria, deveria ser fácil também resgatar do esquecimento aquela imensa constelação de pequenos empreendedores que fizeram o progresso de setores menos concentrados. Foi assim, pela ação de um sem número de pequenos e médios empreendedores – recrutados sobretudo, dentre os migrantes espanhóis e italianos, - que o setor de sucatas veio contribuir para que se imprimisse um forte impulso à industrialização do paíz. É uma história que começa ainda no final do século XIX, em plena belle époque, quando em busca de oportunidades e melhores condições de vida, uma gigantesca corrente de imigração afluiu de quase todo o mundo em direção ao continente Americano. “Foram cerca de 4,5 milhões de imigrantes que entraram no Brasil entre1880 e 1960. Na maioria, saindo da Europa e vindo para São Paulo. E, na quase totalidade, indo para a grande lavoura de café”. Com o tempo, boa parte dos imigrantes terminou escolhendo as cidades, onde lhes caberia um papel importantíssimo na industrialização do país. E, no tocante à sucata, especialmente em São Paulo, boa parte dos protagonistas era gente vinda da Espanha. “Não existe parecer uma razão específica e lógica para o fato de os pioneiros da sucata terem sidos, na maioria, imigrantes espanhóis e terem se concentrado na Mooca e bairros visinhos. Alguns é verdade, traziam de sua terra certa experiência com a atividade, mas não tanto a ser determinante. Da mesma forma, não havia nenhum motivo especial para escolher esse ou aquele bairro, esta ou aquela região da cidade para se estabelecerem”. “Indagações semelhante, poderiam ser feitas em relação à preferência dos portugueses pelas padarias, dos italianos pelas cantinas e de ambos pelo bairro do Brás. E no Rio de Janeiro, como é sabido, foram os portugueses que pioneiramente se aventuraram com o comércio de sucata”. “Se faltam boas explicações, sobram coincidências. E estas combinadas às conveniências, podem acabar explicando de alguma forma o rumo das coisas. Não há dúvida de que morar e trabalhar na Mooca e no Brás, ou no Belém, Barra Funda, Cambuci, Ipiranga e Vila Mariana era muito conveniente.” Um retrato muito característico dessa saga dos sucateiros de origem espanhola nos é fornecido pelo depoimento de Miguel Navarro, um tradicional representante do ramo no bairro da Mooca: “Meus pais vieram da Espanha e chegaram a São Paulo em 1962. Por volta de 1940, começaram no ramo de ferro velho na Mooca. Trabalhavam com jornal, papel, garrafa, sucata de ferro, com mais de trinta carrinheiros. Compravam de tudo, tudo era reciclável já naquela época. Mas para vender a sucata de ferro, os primeiros contatos foram as siderúrgicas dos Jafet e dos Aliperti.” Nos primórdios da atividade sucateira, nas décadas de 1940 e 1950, quase todo metal acumulado nos depósitos paulistas – ferro, cobre, latão, chapa galvanizada, etc. – tinha como destino as fundições e siderúrgicas do grupo Jafet, Alipert, Villares, e Dedini em São Paulo, São Caetano do Sul, Santo André e Mogi das Cruzes. As fundições eram mais antigas e numerosas, as siderúrgicas, todas de pequeno e médio porte, ensaiavam ainda os primeiros passos do setor no país: a produção brasileira de aço bruto mal chegava a 40 mil toneladas anuais. Foi durante a segunda guerra mundial, quando pelos transtornos causados pelo conflito ao comércio internacional, caíram as importações brasileiras de manufaturados que a indústria sofreu um impulso definitivo. Animada pela expressiva expansão da atividade siderúrgica, pelo advento da indústria de bens duráveis e pela expansão da construção civil, a demanda por sucata metálica subiu aceleradamente, fenômeno que deu causa a uma enorme transformação do setor. Ele saía da condição original de um pequeno setor secundário, para uma atividade de muito maior envergadura. Tudo seria diferente daí por diante, quantitativa e qualitativamente, da organização da coleta ao manejo da sucata nos depósitos e à entrega para os clientes. Se indagássemos a pessoas comuns, de mediana cultura, que idéia elas associariam à atividade do sucateiro, é bem possível que bem poucos lembrassem das siderurgia. Isso porque, por um lado, para o grande público a indústria siderúrgica ainda é sinônimo de alto forno, produção de chapas de aço a partir da fusão de ferro e carvão. Chapas que depois vão virar latarias de carro, de geladeiras, microondas e mais uma infinidade de produtos. Por outro lado grande parte do mesmo grande público ainda identifica como sucata, tudo ou quase tudo que perdeu a utilidade. Objetos ou restos de objetos que envelheceram os se estragaram. Coisas que já não valem a pena manter, que é hora de jogar no lixo, ou de, num ato de generosidade, dar para alguém que queira aproveitar. Felizmente, essa compreensão está melhorando e essa atitude está mudando. Com mais informação, aos poucos, as pessoas descobrem que aço não é só chapa, mas também vergalhão e cantoneira, por exemplo, fabricados em siderúrgicas, que aproveitam principalmente a sucata ferrosa na sua produção. Isso faz aumentar o número de pessoas que hoje vêem a sucata, seja de metal, papel, vidro ou plástico, não mais como um rejeito inútil e incômodo, mas um resíduo de valor a ser reciclado e reutilizado. Essa mudança de mentalidade deve-se em grande medida a profissionalização do setor, que teve lugar, sobretudo nos anos sessenta e setenta, sendo contemporânea de um processo generalizado de renovação tecnológica e modernização gerencial por parte da indústria brasileira. Simultaneamente a modernização de suas empresas, os sucateiros empreendiam igualmente uma intensa atividade política/profissional, de organização do setor para uma defesa racional, representativa e bem articulada dos seus interesses perante a sociedade e o poder político. Nesse sentido, a 12 de junho de 1972, seria fundada a associação Profissional do Comércio Atacadista de Sucatas de Ferro do estado de São Paulo. Quase três anos depois, a 06 de maio de 1975, seria constituído o Instituto Nacional das Empresas de Preparação de Sucatas de Ferro e Aço – INESFA, primeira entidade representativa no âmbito nacional para o ramo da sucata. Em 1980, a mesma entidade mudaria seu nome para Instituto Nacional das Empresas de Preparação de Sucatas Não Ferrosas e de Ferro e Aço – INESFA. Desse modo, tanto no âmbito das empresas quanto nas esferas associativa, a indústria da sucata estava relativamente bem preparada para enfrentar a profunda transformação estrutural pela qual passaria a economia brasileira a partir dos anos oitenta. No entanto, ao lado da espiral-inflacionária, dos rigores da estabilização monetária e da abertura comercial, traumas pelos quais a indústria teve que sobreviver nas décadas de oitenta e noventa, viveria também o crescimento da consciência ecológica, fenômeno que daria uma nova dimensão ético-social à atividade sucateira. Hoje quando se fala tanto de preservação ambiental, coleta seletiva de lixo, reciclagem de resíduos industriais e domésticos e desenvolvimento sustentável, é preciso reconhecer que os sucateiros impulsionaram uma atividade econômica, a qual, de certo modo, antecipou o que hoje se pensa e se faz. Mesmo sema consciência ecológica desenvolvida ao longo do tempo e agora, felizmente consolidada, eles assumiram uma função que hoje a sociedade reconhece como de alto valor – a de reutilizar tanto quanto possível os materiais usados tanto na produção e no consumo, em benefício da preservação dos ambientes naturais e da própria vida social, com água, solo e atmosfera mais limpos Os sucateiros fizeram o negócio da sucata passar a ser visto com outros olhos por empresários, autoridades e cidadãos em geral. A sucata, seja de metal, papel, vidro, ou plástico, sejam chapas de aço ou garrafa, definitivamente deixou de ser algo menor valor para as empresas e deixou de ser lixo para as pessoas comuns. Assim converter o dia 12 de junho, data em que foi fundada, no ano de 1972, a Associação Profissional do comércio Atacadista de Sucatas de Ferro do Estado de São Paulo, primeira entidade representativa da categoria, em “Dia do Sucateiro” nos parece uma homenagem até modesta em face da importância de que se reveste a atividade sucateira para a economia, a sociedade e o meio ambiente de nosso país. Significa converter o dia 12 de junho num dia em que a sociedade paulista haverá de lembrar aqueles tempos empreendedores que contribuíram para o desenvolvimento da economia brasileira por meio da atividade sucateira e para o tanto que esta ainda vem contribuindo para a criação de empregos e o desenvolvimento sustentável do Brasil e do Estado.
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